Ao contrário do que se pensa, o
gênero Western, de origem norte-americana, é muito importante para o
entendimento da historiografia da Sétima Arte, tendo influenciado muitos outros
gêneros que vigoram até hoje, além de ter sido laboratório de algumas técnicas
narrativas fundamentais para o aprimoramento das narrativas cinematográficas
contemporâneas.
O gênero marca os primeiros filmes
totalmente narrativos, além de ser um gênero hollywoodiano por excelência. A
tal influência citada anteriormente está ligada ao fato de que o western foi
fonte de inspiração para muitos filmes de samurais japoneses, filmes indianos,
russos, mexicanos e interessante para o entendimento da nossa cultura,
brasileira, dos filmes de cangaceiros.
O western foi o responsável pela
cristalização do imaginário de Velho Oeste, local de fusão de distintas regiões
dos Estados Unidos, comparados por alguns teóricos com a Grécia Antiga, que
espalhou de forma semelhante seu imaginário pelo mundo afora. O cowboy
tornou-se um legítimo estadudinense quando se transformou em um símbolo do
oeste selvagem, legendário e folclórico. Hollywood imortalizou essa imagem de
cowboy ao criar o tipo vestido com colete folgado, chapéu de abas, lenço no
pescoço e portando um revólver num coldre, geralmente de couro.
O universo do western é
mitológico, as histórias são criadas a partir de relatos de uma sociedade que
criou o hábito de ao longo do tempo, alcançar a capacidade de simbolizar uma
ideologia, e assim, dramatizar a consciência moral local. Estas histórias, que
surgiram de eventos reais entram no processo de criação e recriação à medida
que vão se transformando, tornando-se simbólicas, ícones que algumas vezes
estão repletos de clichês históricos.
Uma das características deste
gênero é a história de heroísmo do homem branco, desbravador de terras. Alguém
duvida da relação com a história de colonização, relatada tão coerentemente
pelo romantismo de José de Alencar? Nessas narrativas, o indígena e a natureza
estão como obstáculos na construção de uma sociedade superior, atrelada ao
puritanismo.
Muitos desses elementos míticos
estão presentes na literatura dos Estados Unidos. Na genealogia do western
estão a música folk colonial, livros de autores como James Fenimore Cooper e
alguns romances populares do século XIX.
Com isso, é interessante lembrar
das dicotomias presentes no imaginário do western: cultura versus natureza,
Leste versus Oeste, o verde e o deserto, a América e a Europa, a ordem social e
a anarquia, o indivíduo e a comunidade, a cidade e as terras selvagens, o
cowboy e o índio, a professorinha e a dançarina / prostituta.
O momento histórico que o gênero
se refere boa parte do tempo são os da Guerra Civil Americana e se estendeu até o início do
século XX.
As primeiras duas décadas do
século XX marcaram o pioneirismo norte-americano nas produções. "Grande Roubo do Trem" (Edwin Porter, 1903) foi o embrião do gênero, que
teria também como característica a luta entre o bem e o mal, além de retratar a
figura do índio de duas formas: a primeira, o índio como personagem irracional,
selvagem e sedento por sangue, e na segunda, representações de um índio como
portador da dignidade americana.
Uma outra característica de alguns
filmes era o sentimentalismo que manifestava-se de diversas maneiras, entre
elas, a recuperação do vilão pelo amor da heroína ou a admiração de uma criança
(temática que vai permear diversos outros gêneros cinematográficos e
literários), no amor de seu cowboy por seu cavalo (também uma temática que
transformou-se em outros gêneros, como apegos, por exemplo, a um cachorro) e no
dedicado herói e sua devoção pela irmã pura e ingênua.
Foi nesse gênero que surgiu a
imagem da mulher redentora hollywoodiana, capaz de redimir o herói de toda sua
violência e colocá-lo na ordem da paz e do amor. Essa mulher do gênero western
é uma das pilastras basilares para as grandes divas dos filmes clássicos hollywoodianos,
denominadas de mulheres poderosas, de poder e lugar certo na sociedade.
A reforma do herói é então, uma
das principais características. Como surgimento de novas tecnologias, o gênero
western ganhou novos formatos, adaptou-se a nova realidade cultural de um mundo
pós Primeira Guerra mundial.
A figura de John Ford e o filme "No Tempo das Diligências" são duas fortes fontes imagéticas do gênero western,
que começou a cair no ocaso quando seu código de honra e as suas regras
mostraram-se defasadas da realidade do mundo que mudava seu formato com passos
cada vez mais ligeiros.
O gênero entrou em fase de
saturação após a Segunda Guerra Mundial, por motivos citados anteriormente.
Muitos diretores ainda continuvaam insistindo nestas narrativas, visando
agradar provavelmente apenas aos fãs do formato. Outros eventos históricos
posteriores como a Guerra do Vietnã, a Guerra da Coréia, a invenção da pílula
anticoncepcional e outros fatores, desatualizaram o gênero, que foi
posteriormente revisitado em produções que buscaram homenageá-lo, não
pretendendo recriá-lo.
Em 2006, o diretor Ang Lee
descontruiu toda a estrutura típica dos machões do gênero western e adaptou o
conto "Brokeback Mountain" para os cinemas, um filme que aborda o ícone basilar
do homem norte-americano numa relação homossexual. O gênero foi influência
direta em alguns aspectos dos filmes de cangaço do cinema brasileiro, entre
eles, "Deus e o Diabo na Terra do Sol", de Glauber Rocha.
*Postado por Cleison Guimarães.

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