quinta-feira, 30 de maio de 2013

Neo Realismo Italiano




O que foi o neo-realismo?

Se o chamado neo-realismo se revelou ao mundo de forma mais impressionante através de Roma, cíttà aperta, cabe aos outros julgar. Eu vejo o nascimento do neo-realismo mais para lá: em primeiro lugar, em alguns documentários de guerra romanceados, nos quais também eu estou representado com La nave bianca; depois, nos verdadeiros filmes de ficção sobre a guerra, dos quais fui colaborador no roteiro, como Luciano Serrapilota, ou realizador, como L'uomo âalla croce; por fim, e sobretudo, em certos filmes menores, como Avanti cè posto, L'ultima carrozzella e Campo de' fiori, em que a fórmula do neo-realismo, se assim o quisermos chamar, vem se compondo através das criações espontâneas dos atores: de Anna Magnani e de Aldo Fabrizi, particularmente.
Ro

Roma, Cidade Aberta e A Terra Treme



Roma, cidade aberta é de 1945, A terra treme de 1948: duas datas dentro das quais se encerram o princípio e o fim de um período durante o qual parecia realmente que a terra estivesse tremendo e que a estrutura da sociedade estivesse prestes a passar por mudanças radicais. Neste clima de ânsias e de esperanças num mundo melhor, mas também de temores e de preocupações, o neo-realismo italiano disse corajosa e sinceramente o que tinha de dizer, deduzindo-o da realidade viva que se apresentava aos artistas com toda a sua força dialética. Depois desta data começa a involução.


Seja como for, o neo-realismo não conseguiu sobreviver à polêmica em torno da passagem para o realismo crítico (1954); ademais, já não fazia muito sentido falar nele depois de 1955-1956, quando o cinema italiano passou por uma profunda crise.

Diretores

Fellini

No que diz respeito aos diretores que integraram o neo-realismo, também há muita discordância, pois, com essa etiqueta, abrigaram-se teorias contrastantes: do pedinamento zavattiniano ao realismo viscontiano, "sublimado pela reflexão estética e estilística, no limite do formalismo" (Zagarrio 2000, p. 96), passando pela indagação fenomenológica rosselliniana.
Para Federico Fellini, o único cineasta neo-realista foi Rossellini, de quem foi colaborador ao dar seus primeiros passos no cinema.

Rossellini

Agrupamos por temas as obras ao redor dos quais há um consenso maior:

a) O fascismo, a guerra e suas conseqüências - Dias de glória (1945), projeto coletivo de Pagliero, Visconti, De Santis e Serandrei; Roma, cidade aberta, Paisá, Alemanha ano zero; Um dia na vida; O sol ainda se levantará; Viver em paz e Anni difficili; O bandido e Sem piedade (1948),de Lattuada.
b) A"questão meridional” e os problemas sociais no campo-Trágica perseguição, Arroz amargo, Non cèpace tra gli ulivi; A terra treme; O moinho do Pó; Em nome da lei, Il cammino delia speranza; Processo alla città (1952), de Zampa.
c) O desemprego e o subemprego urbanos - Ladrões de bicicleta, Milagre em Milão (1950) e O teto (1956), de De Sica; Roma, às onze horas (1952), de De Santis; L'arte di arrangiarsi (1955), de Zampa.
d) O abandono dos jovens e dos idosos-Vítimas da tormenta,Umberto D; Gioventü perduta (1947), de Germi; Proibito rubare (1948), de Comencini; O capeta (1952), de Lattuada.E)A condição da mulher - Nós, as mulheres, Amor na cidade; Quando a mulher erra (1953), de De Sica; Il sole negli occhi (1953), de Pietrangeli; A garota sem homem (1953), de De Santis; La spiaggia (1954), de Lattuada; Ragazze d'oggi (1955), de Zampa.
F)A indagação psicológica e a relação do homem com a religião - O amor (1948), Stromboli (1950), Francisco, arauto de Deus (1950), Europa 51 (1952), Viagem à Itália (1954), de Rossellini.
g) A volta da temática do antifascismo e da guerra-A rebelde e Amantes de Florença (1953), de Lizzani; Os revoltosos (1955), de Maselli.h) A elegia populista e a diluição da temática social - Meu filho professor, Sob o sol de Roma, É primavera, Due soldi di speranza; L'onorevole Angelina, Os anos fáceis; Una domenica d 'agosto, Garotas de Praça de Espanha e Onde a vida começa (1953), de Emmer; O ouro de Nápoles (1954), de Vittorio De Sica.i)A superação do neo-realismo -Belíssima (1951) e Sedução da carne, de Visconti.

Características técnicas e estilísticas do neo-realismo


1.A utilização freqüente dos planos de conjunto e dos planos médios e um enquadramento semelhante ao utilizado nos filmes de atualidades: a câmera não sugere, não disseca, só registra.

Recusa de efeitos
Imagem acinzentada
Atores
Flexibilidade da decupagem
OrçamentoSincronização posterior


A técnica do documentário

Paisagem e fascismo

Roteiros não rígidos 

O coração manda (Blasetti, 1942), Obsessão (Visconti, 1943) e A culpa dos pais (De Sica, 1944), três filmes apontados como antecipações do neo-realismo

Por fim...

Adotando as palavras de Micciché, definiríamos o neo-realismo como uma "ética da estética" (1978, p. 28) que não teve tempo de se transformar numa "estética", pois, por não ter conseguindo constituir plenamente sua poética nem ampliar seus conteúdos, capitulou ante os acontecimentos político-sociais que se desenrolaram na Itália do pós-guerra. 

Ao sucumbir, entretanto, o neo-realismo não deixou de alimentar o cinema italiano e mundial com seu impulso moral, sua vocação transgressora, seu engajamento, representando, segundo Hennebelle, "um prelúdio à insurreição anti-hollywoodiana" (1978, p. 65), que caracterizará as novas cinematografias dos anos 1960. Mas, aí, já é outra história.



*Postado por Cleison Guimarães.

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